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Texto sobre prematuros e amamentação, maternidade, culpas.

22/02/2018

*Por Luís Tavares

 
Vai mais aí que a culpa.

Que a ferida narcísica de que fala a psicologia.

A amamentação é a resultante da interação de uma mãe organizada e pronta com seu bebê organizado e pronto.

A passagem pela UTI quebra a organização do bebê e quebra a organização materna.

Quando um bebê de uti, prematuro ou não, amamenta na sua mãezinha, a cena é composta de uma mãe com a história quebrada e de um bebê com sua história quebrada.

Jung já nos aconselha a conhecer todas as teorias e dominar todas as técnicas mas diante de uma alma humana sermos apenas outra alma humana.

Tornar-se uma alma humana diante de uma mãe de UTI é talvez o grande desafio que a equipe de saúde tem pela frente para trazer aquelas histórias maternas e do bebê arranhadas pela dor até a condição de estabilidade que vai permitir o sucesso da amamentação. 

É preciso que profissional, instituição hospitalar, família, sociedade, segurança de Amparo legal , todos juntos formando um ambiente livre dos entraves que a maternidade de UTI impõe na maioria das vezes.

A baixa produção de leite é multifatorial.

Tentar resolver com medicamentos ou sistematização da ordenha é segmentar a atenção quando essa precisa ser globalizada.

Não basta um profissional capaz e humanizado.

É preciso uma UTI atenta e humanizada.

Uma família acolhida e respeitada.

Uma sociedade que garanta direitos legais de licença estendida e permanência materna junto a seus filhos.

Deixa essa coisa de culpa materna de lado. Faz tempo deixei de brigar com as culpas maternas por que elas sempre surgem ora mais fortes ora mais frágeis ora por um motivo ora por outros. Hoje em dia eu beijo essa culpa sem lutar para apagá-la, mas oferecendo substratos que permitam a minhas mãezinhas respirar além da culpa e em direção a seus sonhos.

Se uso galactogogos? Claro que uso galactogogos. Não tenho minha prática financiada por laboratório nenhum, mas uma lição que aprendi com a prematuridade é que na falta de consenso prevalece o bom senso.

Mães de bebês muito miudinhos com histórias muito sofridas e vida pessoal muito conturbada, se desejam amamentar e toda gentileza que nossa equipe a oferta não é capaz de fazê-la tornar real essa possibilidade, eu peço ajuda. E acompanho. Vou monitorando. E guardo para mim boas lembranças de resultados muito bons.

Cabe um comentário sobre a produção insuficiente de leite da mãe prematura.

Produção interna, celular, tecidual, não mensurável? Ou aquela outra medida em mililitros que escapa da mama? É bom lembrar que no meio do caminho entre uma e outra existe uma substância tímida que se esconde ao menor sinal de desarmonia. Ocitocina. Molécula da moralidade. Como trabalhar sem te magoar? Como evitar ações intempestivas que te façam se esconder

Sigamos nossas histórias ao lado de nossas mães tentando ao lado delas nos tornar menos doutores e assim nos fazermos melhores cidadãos do mundo.

* Luís Tavares é pediatra, poeta, trabalha em UTI no Rio de Janeiro.

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