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Artigos
O cenário atual da obesidade

04/09/2019

*Por: Dra. Anete Hannud Abdo

 
Até há pouco tempo, a obesidade era considerada simplesmente como o resultado de uma ingestão excessiva de calorias associada à vida sedentária, e o obeso era tido como uma pessoa "sem força de vontade", recaindo sobre ele uma enorme culpa pelo seu estado. Estudos atuais, no entanto, trouxeram evidências de que a herança genética é muito importante na gênese da obesidade: - gêmeos idênticos mostram um padrão de evolução do peso muito semelhante, mesmo que não tenham sido criados juntos; - o grau de obesidade de crianças adotadas assemelha-se muito mais com o de seus pais verdadeiros do que com o de seus pais adotivos. 
 
Mas nem tudo é genética. Não ocorreram mudanças genéticas tão importantes nos últimos anos que justificassem este aumento alarmante da obesidade no mundo. Ocorreram, isto sim, grandes modificações nos hábitos de vida dos povos. As migrações podem nos mostrar com clareza a influência do meio ambiente na gênese da obesidade. Japoneses que moram no Japão aumentam de peso quando migram para os Estados Unidos, pois modificam sua alimentação e tornam-se mais sedentários. O mesmo acontece com índios que saem de suas tribos para viver nas cidades, absorvendo os hábitos de vida pouco saudáveis dos "civilizados". 
 
O progresso tecnológico gerou facilidades (automóveis, escadas-rolantes, elevadores, controles-remotos, internet, etc.) que, paradoxalmente, ao mesmo tempo que trazem conforto, conspiram contra a saúde ao fazer as pessoas ficarem cada vez mais sedentárias. Isto acontece tanto no trabalho (automação) como nos momentos de lazer (videogames, televisão). Além disso, a industrialização tornou os alimentos mais acessíveis, mais palatáveis e mais refinados. O tamanho das porções aumentou e as pessoas estão consumindo cada vez mais alimentos de grande densidade energética, com altos teores de açúcar e gordura saturada. 
 
Lutar contra todos esses hábitos enraizados na sociedade é como nadar contra a maré. Assim, em programas de emagrecimento, é comum em muitos momentos acontecer uma dificuldade maior para a perda de peso, ou até reganho de peso, o que faz muita gente desanimar ou até desistir do tratamento. 
 
Aqui vão algumas explicações de porque isso acontece e algumas dicas para você refletir e persistir na batalha contra os quilinhos indesejados. Mas lembre-se de que é sempre importante uma avaliação com endocrinologista/clínico para excluir problemas médicos que possam estar causando ganho de peso ou dificultando a perda de peso e que precisam de tratamento como, por exemplo, transtornos alimentares, apnéia do sono, hipotireoidismo, excesso de produção de cortisol, efeito colateral de medicamentos, e tantos outros. 
 
1) Dietas drásticas e/ou muito restritivas. Na ânsia por perder muito peso em pouco tempo, muitas vezes as pessoas optam por dietas drásticas e/ou muito restritivas. Mas dificilmente alguém consegue comer tão pouco ou com tantas restrições alimentares por muito tempo; muitas vezes o rebote vem com episódios de compulsão alimentar: você vai devorar tudo o que ver pela frente e com isso trazer os quilinhos de volta. Além disso, se você diminui muito a ingestão total diária de calorias, o organismo interpreta isso como um alerta de escassez de alimentos e se defende economizando, diminuindo o seu metabolismo, o que torna mais difícil emagrecer. Outro problema: quanto mais rápido perdemos peso, perdemos também maior quantidade de massa magra, o que diminui ainda mais o metabolismo, favorecendo o reganho de peso. 
 
Dica: Evite dietas drásticas e/ou muito restritivas. Procure fazer uma alimentação saudável. Avaliação e acompanhamento com nutricionista para adequar a alimentação às suas necessidades e atividade física pode ajudar muito. 
 
2) Ficar muitas horas sem se alimentar. Se você passa muitas horas sem se alimentar, a fome pode tornar-se incontrolável na próxima refeição e você vai acabar ingerindo um número maior de calorias. Pular o almoço e só jantar, por exemplo, não é um bom negócio, pois você vai chegar em casa com muita fome e comer demais. Podemos comparar nosso organismo a uma máquina, que processa os alimentos para obter energia, e, como toda máquina, ele tem uma capacidade máxima que deve ser respeitada. Imagine uma máquina de lavar roupa que tem capacidade para lavar 7 quilos. O que acontece se você colocar 21 quilos de roupa de uma só vez nesta máquina? Ela quebra. Mas se você fizer com que ela funcione 3 vezes, lavando 7 quilos de cada vez, ela vai funcionar direitinho. 
 
Dica: Não pule refeições. Não fique muitas horas sem se alimentar. 
 
3) Comer rápido. Quando a gente come, nosso organismo precisa de mais ou menos vinte minutos para enviar ao nosso cérebro a mensagem de que já comemos o suficiente. Esta mensagem precisa chegar ao cérebro para que ele produza substâncias que vão gerar a sensação de saciedade. Se você come depressa, não há tempo para que esta mensagem de que já foi atingido o número de calorias necessário para "matar a fome" chegue ao cérebro, você não vai ter a sensação de saciedade, não vai ficar satisfeito mesmo já tendo comido o suficiente, e vai acabar comendo demais. 
 
Dica: Cultive o hábito de comer devagar, mastigando bem os alimentos. Faça da refeição um prazer, saboreando os alimentos, sem pressa e sem ansiedade. 
 
4) Comer em situações de estresse. Quando você está estressado, nervoso, ou discutindo problemas com alguém, seu organismo está produzindo hormônios do estresse (cortisol, adrenalina e outros) que favorecem o aumento da glicemia e o depósito de gorduras, além do aumento da pressão arterial. Portanto, comer nessa hora não é uma boa ideia, pois sua máquina metabólica não está preparada para receber e metabolizar corretamente os alimentos. Além disso, você vai tender a comer mais rápido e comer quantidades maiores, sem perceber o quanto ingeriu. 
 
Dica: Reserve um horário tranquilo para as refeições, não trabalhe ou discuta enquanto se alimenta. Lembro-me da minha avó que dizia que o horário da refeição é sagrado e que devemos comer em paz: sábios conselhos. 
 
5) Sedentarismo. A atividade física nos traz uma série enorme de benefícios. Em primeiro lugar, quando a gente pratica uma atividade física, nosso cérebro produz substâncias chamadas endorfinas, que fazem com que a gente tenha uma sensação gostosa de bem-estar, a nossa disposição melhora, assim como o nosso humor. Além disso, a atividade física aumenta nossa massa muscular e aumenta nosso gasto de calorias. Também ajuda no controle da glicemia, sendo importantíssima no tratamento dos diabéticos, e ajuda a melhorar a pressão alta e o colesterol. Fazendo 30 minutos de caminhada 5 vezes por semana você reduz em 40% a chance de ter um infarto! 
 
Dica: Pratique atividade física. Para começar, uma simples caminhada diária pode ajudar muito! Qualquer atividade física é válida, mesmo aquelas do seu dia a dia, como subir e descer escadas, andar até a padaria, brincar de bola com os filhos ou com os netos e tantas outras. Quanto menos horas você permanecer sentado, melhor. O importante é que você escolha uma atividade física com a qual você se identifique, que lhe dê prazer, pois só assim você vai conseguir fazê-la regularmente. Ter prazer na atividade física é realmente a chave, a palavra mágica para que a gente não desista, pois atividade física é para sempre. 
 
Importante: para atividades mais intensas, é importante a avaliação cardiológica prévia e a orientação do educador físico para evitar lesões. 
 
6) Problemas psicológicos. Muitas vezes as pessoas buscam no prazer da comida um alívio para problemas psicológicos mal resolvidos. Depressão e ansiedade também podem contribuir para o ganho de peso. 
 
Dica: Cuide do emocional, não só do físico. Pergunte-se sempre se a fome que você está sentindo é por falta de comida, de nutrientes, ou se é uma fome emocional. A resposta a esta pergunta pode significar muito em termos de que tipo de tratamento você precisa. Muitas vezes um acompanhamento psicológico pode ser de grande ajuda. 
 
7) Horas de sono. Dormir menos do que o necessário, ou dormir mal, altera a dinâmica de vários hormônios relacionados ao controle da fome e da saciedade, como a grelina (produzida pelo estômago), a leptina (produzida pelo tecido adiposo) e a insulina (produzida pelo pâncreas), e até mesmo altera as escolhas alimentares para alimentos mais calóricos, predispondo ao aumento de peso. 
 
Dica: Respeite seu horário de sono noturno. 
 
Mensagem Final: a obesidade resulta de uma complexa interação entre a genética, como fator predisponente importante, e o ambiente, como fator desencadeante e mantenedor do aumento de peso, sendo fundamental para sua prevenção e tratamento a implementação de mudanças no estilo de vida. Não existe CURA para a tendência ao ganho de peso. Emagrecimento com saúde se faz de maneira progressiva e duradoura, através de mudanças PERMANENTES no estilo de vida e harmonia entre corpo e mente.
 
* Dra. Anete Hannud Abdo (CRM 34240) é médica endocrinologista, Especialista em Endocrinologia e Metabologia pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)
 

 

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